HISTORIAL DA OCORRÊNCIA DE INCIDENTES
Nos estudos sobre riscos, um dos principais aspectos a considerar é a identificação de áreas onde ocorreram eventos no passado, uma vez que se trata de um indicador de probabilidade de recorrência. Com efeito, com o passar dos anos observa-se muitas vezes a repetição de determinados fenómenos em áreas preferenciais, sobretudos aqueles de índole natural. Tal deve-se ao facto de estarem associadas determinadas características do território a essas ocorrências, que auxiliam não só à identificação e ao estudo dos riscos mas também dos próprios processos biofísicos envolvidos.
Neste sentido, o item “ocorrências anteriores” foi considerado como um parâmetro fundamental na análise dos vários tipos de risco analisados neste trabalho. A identificação e análise de acontecimentos semelhantes ocorridos no passado e da sua localização permitiu a definição de áreas mais críticas a essa potencial recorrência. Contudo, foram atribuídas diferentes ponderações a este parâmetro nos diferentes tipos de risco, devido à sua relativa importância em função do tipo de risco analisado.
Para a aferição das ocorrências anteriores, foi efectuada uma pesquisa documental, a qual assentou sobretudo na consulta de periódicos regionais, dos quais se destacam o “Mensageiro de Bragança” (publicado desde 1940) e o “Notícias de Mirandela” (publicado desde 1957). Outros jornais regionais foram consultados, como o “Terra Quente”, o “Cardo” e o “Voz do Nordeste”, tendo estes iniciado a sua publicação apenas no decorrer da década de 80 do século XX.
No mesmo sentido, salienta-se a informação disponibilizada pelo CDOS (Centro Distrital de Operações de Socorro) de Bragança, relativa a ocorrências verificadas nos últimos anos (desde 2002) e que podem ser indicadoras de áreas mais susceptíveis a determinados tipos de risco.
No âmbito da interactividade pressuposta para a realização deste trabalho, foram ainda consultadas as entidades de protecção civil dos três concelhos estudados, nomeadamente os Bombeiros Voluntários de Mirandela, de Macedo de Cavaleiros, de Bragança de Izeda e de Torre Dona Chama, a Guarda Nacional Republicana de Mirandela, de Macedo de Cavaleiros e de Bragança, bem como a Polícia de Segurança Pública de Mirandela e de Bragança. No decorrer destas consultas, foi solicitada a indicação de áreas de maior ocorrência de “desastres” (naturais ou tecnológicos), de acordo com a experiência vivida por aqueles agentes de protecção civil.
RISCOS NATURAIS
Os concelhos de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança compreendem, na sua maioria, áreas de montanha, planaltos com ocupação florestal e explorações agrícolas, limitando-se as áreas urbanizadas às cidades sede de concelho e arredores, assim como a outras pequenas vilas e aldeias, as quais apresentam um povoamento, em regra, concentrado.
Os riscos naturais, apesar de mais concentrados nesses sectores, de maior vulnerabilidade, são também de considerar nas restantes áreas, com actividades humanas como a florestação, a agricultura, infra-estruturas e outros elementos culturais que se conjungam com elementos naturais de vulnerabilidade.
No que diz respeito a incêndios florestais, salienta-se o facto de, tal como na maioria do resto do país, o seu incremento se verificar a partir de meados de 1970. A mudança do regime político e o progressivo desinteresse por uma política florestal de nível nacional, assim como o facto de ter havido profundas mudanças sociais que levaram a uma desestruturação do mundo rural com o progressivo abandono dos campos e um crescimento florestal por regeneração e não planeado, levaram ao abandono das actividades florestais e a maior parte das áreas florestais anteriormente planeadas e exploradas começaram então a experimentar problemas, dos quais se destacam os incêndios florestais. Com efeito, logo nos primeiros anos pós-25 de Abril ocorreu um elevado número de incêndios, associados ao tempo quente e seco então verificado (como no célebre verão quente de 1975) e desde então os incêndios florestais têm-se multiplicado, ainda que a área ardida varie muito de ano para ano (Figura 1).
Para além disso, há que considerar que os incêndios florestais, para além dos danos ambientais e materiais que causam, podem originar igualmente danos pessoais, quer sobre as populações que habitam as áreas afectadas, quer nos meios humanos de combate aos fogos. A esse respeito, um dos incêndios florestais mais tristemente memorável foi aquele ocorrido em Freixedelo (Bragança), a 4 de Julho de 1987, o qual vitimou mortalmente cinco pessoas (A Voz do Nordeste nº 40, de 15 de Julho de 1987).
Neste tipo de risco natural, as ocorrências anteriores são fundamentais para a definição de áreas mais susceptíveis à recorrência. Na elaboração deste trabalho, as ocorrências anteriores de incêndios florestais foram a única variável integrada na carta de probabilidade. Corresponde à percentagem média anual de ocorrência de incêndios florestais.
A existência de figuras legais de protecção ambiental de vastas áreas na região transmontana tem auxiliado na minimização dos incêndios florestais em determinadas áreas. Áreas protegidas como o Parque Natural de Montesinho e a Área de Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo e o sítio classificado do Romeu, mercê da maior vigilância, melhor limpeza das matas e principalmente pelo tipo de vegetação (endógena) que as caracteriza, são áreas onde a incidência dos incêndios florestais está mais controlada. Contudo, de acordo com os dados existentes sobre as áreas ardidas nos últimos anos e com as informações obtidas junto das corporações de bombeiros locais, é precisamente nas áreas montanhosas como as serras de Montesinho, da Nogueira e de Bornes que ocorre o maior número de incêndios, onde a vegetação arbustiva e arbórea é mais densa e onde os acessos são mais dificultados.
Não menos importante é o risco de inundação que consiste no transbordo da água para fora dos elementos que normalmente a contêm, quer sejam os rios, o mar ou a circulação subterrânea. A região transmontana é atravessada, grosso modo, de norte para sul, por importantes cursos de água, afluentes do rio Douro, como o rio Sabor e o rio Tua. Contudo, não são apenas os rios principais que estão associados a inundações, podendo estas ocorrer em áreas com pequenos cursos de água. As inundações dependem sobretudo de episódios de elevada precipitação concentrada no tempo e no espaço, a que se associa uma morfologia peculiar e, por vezes, a impermeabilização dos solos, que dificultam o escoamento normal, a edificação no leito de cheia, os estrangulamentos, etc.
N este âmbito, destacam-se referências a episódios de inundações que afectaram, por exemplo, as cidades de Bragança e de Macedo de Cavaleiros, onde os cursos de água são de pequena dimensão.
A este propósito, refira-se por exemplo, uma notícia publicada no Mensageiro de Bragança nº 467, de 3 de Julho de 1953, sobre uma tempestade que assolou a cidade de Bragança: “… após intenso calor verificado nos últimos dias, desencadeou-se, nesta cidade ao fim da tarde de 26 de Junho a mais violenta tempestade verificada nos últimos anos, com chuvas torrenciais trovões e contínuas descargas eléctricas, provocando grandes estragos e prejuízos (…) durante duas horas, os bombeiros foram chamados a vários locais onde as inundações faziam perigar edifícios. As comunicações telegrafo-telefónicas ficaram interrompidas”. Mais recentemente, ocorreram novamente cheias na cidade de Bragança, numa situação de temporal em que o rio Fervença “...galgou as margens, sobretudo na zona da Coxa, derrubando o muro que delimita o Instituto Politécnico...” (O Cardo, 19 de Janeiro de 1996, nº 105).
Por outro lado, é de destacar, também no concelho de Bragança, o sector de Gimonde, onde confluem quatro cursos de água: o rio Sabor, o rio Igrejas, o rio de Onor e a ribeira de Labiados. Para além da importância da quantidade de escoamento, com a confluência de quatro rios, este sector é demonstrativo da importância da morfologia no desencadear de inundações. Não havendo um caudal importante (os rios têm ainda pouco caudal nesse sector), com maior alimentação desse caudal pela precipitação concentrada e com o estrangulamento do vale a jusante, parte da aldeia de Gimonde tem sido frequentemente inundada (Figura 2).
Na aldeia de Labiados, a poucos quilómetros de Gimonde, ocorreu uma inundação no início de Setembro de 1959, quando “tremendas cataratas se precipitaram das nuvens, as linhas de água que ali convergem, quase secas no Verão, foram impotentes para dar vazão ao enorme caudal, transbordam e arrastam tudo na sua passagem” havendo ainda notícia de que se “afogaram muitos animais domésticos e carros e instrumentos agrícolas foram levados pela torrente” (Mensageiro de Bragança nº 783, de 4 de Setembro de 1959).
Contudo, no que diz respeito a este tipo de risco natural, é de destacar sobretudo as inundações da cidade de Mirandela e de outras povoações de menor dimensão, nas margens do rio Tua. As inundações do Tua são uma das características históricas da cidade de Mirandela, havendo várias referências a estas ocorrências anteriormente ao século XX. Contudo, é sobretudo a partir do início do século XX que existem dados mais fidedignos sobre as reais dimensões das inundações na cidade. Desde então, e sobretudo pelo nível que atingiram as águas na cidade de Mirandela, são de destacar as inundações que ocorreram nos anos de 1909, 1939, 1954, 1959, 1966, 1978, e mais recentemente, em 2001.
As inundações de 22 e 23 de Dezembro de 1909 são consideradas como as mais importantes a nível regional e mesmo de todo o norte do país. Com efeito, são célebres as inundações de 1909 que afectaram várias localidades nas margens do rio Douro, com realce para as cidades do Porto e da Régua. As inundações afectaram também fortemente os afluentes principais do rio Douro e em Mirandela, a dimensão anormal da área de inundação proporcionou a documentação do fenómeno (Figura 3). No jornal Notícias de Mirandela (nº 164, de 10 de Abril de 1960) faz-se referência a um texto de Sousa Viterbo sobre este episódio, no distrito de Bragança: “...grande enchente de água de 21 para 22 de Dezembro de 1909, de como outra não há notícia no norte de Portugal desde o ano 1860, levou no distrito de Bragança as pontes de Vilarinho, Abreiro, Vale de Arneiro, Argozelo, Pinelo, duas na ribeira de Sacoias e três arcos na de Mirandela, além de vários açudes e represas...”. No ano seguinte (7 e 8 de Dezembro) verificou-se novamente novo episódio de inundação, o que indicia a elevada precipitação ocorrida nesse período do início do século.
Outras importantes inundações se seguiram durante o século XX. A notícia publicada no jornal “Notícias de Mirandela” (nº 150, de 1 de Janeiro de 1960) refere a inundação de 26 e 27 de Dezembro de 1959 como “a maior cheia do rio Tua desde 1939, tendo as suas águas entrado no jardim do santuário de Nossa Sra. do Amparo e chegado a meio da rua que dá acesso ao Largo do Cardal, junto à Avenida da República”. Cerca de um ano mais tarde, a 17 de Novembro de 1960 ocorreu novamente uma inundação, considerada ainda mais importante, tendo as águas chegado “... ao Cardal, à entrada da Rua que vai para o Bairro Pedro Vasques, inundando as habitações deste bairro e os rés do chão das casas do Largo do Cardal. No Parque do Império subiu o caudal até ao passeio da entrada da sede do Sport Clube, ultrapassando na parte sul deste logradouro público (...) o muro de suporte do mesmo”. Atestando a imponência deste episódio, refere-se que “...em conversa com os mais velhos pudemos ouvir, com dados, que tanto em 1909 como em 1939 a torrente do rio Tua não subira tanto como agora” (Notícias de Mirandela, de 20 de Novembro de 1960).
Por seu turno, a inundação de 12 de Fevereiro de 1966 é também considerada como uma das mais importantes de sempre na cidade de Mirandela “...tendo as águas atingido os 8,30 metros na escala higrométrica instalada na Fraga dos Pelames. Em face da cheia da Ribeira de Carvalhais e por as suas águas não terem entrada” (Notícias de Mirandela, nº 461, 20 de Fevereiro de 1966). A inundação chegou muito perto da Rua da República, tendo coberto a ponte quase por completo. O Parque do Império foi igualmente inundado, assim como o santuário de Nossa Senhora do Amparo (Mensageiro de Bragança nº 1105, de 18 de Fevereiro de 1966). Recentemente, no final do ano de 2001, a cidade e o sector de Carvalhais foram novamente alvo de uma das mais importantes inundações de sempre (Figura 4).
No que diz respeito a movimentos de vertente, são três os principais factores para a sua ocorrência: a natureza dos materiais da vertente, a quantidade de água existente nos materiais e a inclinação e instabilidade das vertentes. Contudo, há igualmente que considerar a intervenção humana na dinâmica natural das vertentes (através de introdução ou remoção de vegetação ou mesmo com a alteração da morfologia original da vertente), o que faz aumentar o risco de movimentos de vertente.
Com efeito, as áreas com ocorrências anteriores de movimentos de vertente estão quase sempre associadas a sectores onde existiu intervenção humana na modificação do perfil das vertentes. Tal ocorreu, por exemplo, em taludes associados à construção de vias rodoviárias e ferroviárias, normalmente acompanhando as curvas de nível (e, portanto, perpendiculares à orientação/inclinação das vertentes). Por exemplo, segundo informações recolhidas localmente e junto das corporações de bombeiros, é recorrente (pelo menos todos os anos) a queda de material nos taludes associados à Estrada Nacional 102, na serra de Bornes, devido às características climáticas e sobretudo pela energia das vertentes (modificadas pelo Homem) nesse sector montanhoso.
Os movimentos de vertente associados às linhas-férreas são (e foram-no mais no passado) bastante frequentes. Em Julho de 1952, próximo de Abreiro, ocorreu o “desmoronamento de uma trincheira, ficando a linha (do Tua) obstruída em grande extensão” (Mensageiro de Bragança nº 418, de 25 de Julho de 1952). Na mesma notícia, referindo-se a “trovoadas e chuvas torrenciais no nosso distrito (Bragança)” é feita referência a um desmoronamento que atingiu um comboio que ia a passar na linha-férrea, ao quilómetro nove, próximo de Moncorvo. A 2 de Julho de 1953, no lugar de Devesas, junto à carreira de tiro (Bragança), “numa saibreira pertencente à firma J. Ribeiro Gonçalves, houve um desabamento de terra” que originou a morte a três pessoas e feriu uma outra (Mensageiro de Bragança nº 470, de 31 de Julho de 1953). A 19 de Fevereiro de 1966, na cidade de Mirandela, por ocasião da grande cheia do rio Tua então ocorrida, “desabou sobre a linha férrea à saída do túnel, uma grande quantidade de terra, do talude ali existente e demarcando um olival da Casa de Cima, facto que obrigou a fazer-se transbordo no apeadeiro de S. Sebastião e estação de caminho de ferro” (Notícias de Mirandela nº 461, de 20 de Fevereiro de 1966).
No que diz respeito ao risco sísmico, há essencialmente que considerar os dados históricos, com séculos de existência, uma vez que os sismos têm recorrências que, por vezes, podem ser da ordem das centenas de anos. De acordo com os catálogos de sismicidade histórica do território de Portugal Continental do IM (Instituto de Meteorologia), a região transmontana é aquela que apresenta os valores mais reduzidos. Isto deve-se, em grande parte, ao facto de esta região se mostrar distante da região a sudoeste do cabo de S. Vicente, onde se verificam as ocorrências mais significativas até aos dias de hoje. Com efeito, a cartografia de intensidade sísmica em Portugal continental baseia-se essencialmente naquele que foi o maior evento sísmico registado até hoje, o terramoto de 1 de Novembro de 1755, que afectou sobretudo as regiões de Lisboa e do Algarve, mas que terá feito sentir os seus efeitos um pouco por todo o país, mesmo em Trás-os-Montes. Na região transmontana, a sismicidade é assim considerada residual, com intensidades inferiores ao valor 4 na escala de Richter. Contudo, a proximidade de importantes acidentes tectónicos activos, como o são as falhas de Verin-Penacova (em Trás-os-Montes ocidental) e sobretudo a falha de Bragança-Vilariça-Manteigas (que atravessa, sensivelmente de norte para sul, os concelhos de Bragança e Macedo de Cavaleiros) são responsáveis pela ocorrência de sismos frequentes na região, embora de reduzida intensidade e sem causar danos materiais.
Figura 3 – Aspecto da inundação no Rio Tua em Mirandela, em 1909 (postal da década de 10 do século XX, editado pela Mercearia Moderna, de Mirandela).
Figura 4 – Aspecto das inundações de Dezembro de 2001 na cidade de Mirandela (parque de campismo de Mirandela).
Ao percorrer os periódicos regionais transmontanos publicados desde a década de 40 do século XX, nota-se que é feita muitas vezes referencia à ocorrência de temporais, de secas, ou outras características meteorológicas que afectavam o decorrer normal das actividades humanas, sobretudo ao nível do cultivo agrícola. Como alusão constante ao frio que caracteriza a terra fria transmontana refere-se, por exemplo, que na noite de 22 de Fevereiro de 1948 “os termómetros marcaram a temperatura de -12 ºC na cidade de Bragança” (Mensageiro de Bragança nº 223, de 1 de Março de 1948). No jornal Mensageiro de Bragança nº 496, de 5 de Fevereiro de 1954, é feita referência ao frio e neve que assolam toda a região transmontana, “tornando perigoso o trânsito pelas ruas e caminhos e dificultando a alimentação dos gados”. É referido igualmente que nas serras da Coroa e de Montesinho a neve possuía mais de um metro de espessura.
Na verdade, o frio e os nevões constituem uma das características climáticas bem marcadas do Inverno da região transmontana, principalmente na denominada Terra Fria (Figura 5). Na cidade de Bragança, nos primeiros dias do ano de 1997, após três dias seguidos de precipitação de neve, foi reclamado o “estado de calamidade pública”.
Alguns edifícios, como pavilhões industriais, o pavilhão do Clube Académico de Bragança e a antiga escola Augusto Moreno viram as suas coberturas desabar, pelo excesso de peso da neve. De acordo com as notícias publicadas, este episódio “mostrou a fragilidade infraestrutural actual da região face a intempéries do género e a vulnerabilidade duma população cada vez mais exposta aos riscos da natureza, que não só a neve, como a chuva, o gelo e o excesso de calor” (O Cardo nº 123, de 18 de Janeiro de 1997).
Com efeito, também ao nível da escassez de água, a região sempre se viu afectada. No início da década de 1950 é feita várias vezes referência, nos meios de comunicação local, à seca verificada nalgumas aldeias, como Lagoa, no concelho de Macedo de Cavaleiros. No início da década de 60 do século XX é feita a mesma referência para a parte norte do concelho de Mirandela, por exemplo na povoação de Torre Dona Chama.
Da mesma forma, por muitas vezes é noticiada a forte associação entre a elevada precipitação (e o mau tempo em geral, muitas vezes apelidado de “trovoadas”) e as inundações que assolaram alguns sectores, sobretudo no rio Tua.
Contudo, a imprevisibilidade e aleatoriedade dos elementos climáticos no espaço inviabilizam a determinação de áreas de maior incidência, independentemente da sua ocorrência anterior. Isto é, o facto de terem ocorrido em determinada área é pouco indicativo de poder voltar a acontecer exactamente na mesma área, porque dependem menos dos elementos físicos (e fixos) do território do que outros tipos de risco, como os movimentos de vertente, as inundações ou os sismos. Nesse sentido, foram considerados nestes tipos de risco uma mistura entre registos de ocorrências anteriores e áreas naturalmente mais propícias à sua ocorrência, pelas suas características (por exemplo, nas áreas de montanha, acima de determinada altitude, é naturalmente mais provável a ocorrência de nevões ou elevadas precipitações).
RISCOS TECNOLÓGICOS
A maior incidência de riscos tecnológicos depende, em primeiro lugar, da maior concentração de actividades humanas, as quais se socorrem de diversos meios tecnológicos que podem estar na origem de danos, quer para as próprias actividades humanas quer para os elementos da natureza. Assim sendo, os eventos relacionados com estes tipos de risco ocorrem sobretudo nas áreas mais povoadas, como as cidades de Bragança, Mirandela e Macedo de Cavaleiros e nas vias de comunicação mais importantes. Contudo, apesar de serem esses os principais focos de ocorrências, as restantes áreas podem ser afectadas. Da pesquisa efectuada sobre ocorrências anteriores de acidentes de índole tecnológica, ressalta a reduzida ocorrência de acidentes do tipo industrial (biológicos, radiológicos, com gás, etc.), sendo, no entanto, de destacar a elevada ocorrência de acidentes rodoviários, uma das características da região transmontana, sobretudo nos últimos vinte anos.
Apesar dos acidentes rodoviários ocorrerem um pouco por todo o lado, são registados em maior quantidade em determinadas rodovias, mesmo sem ser das mais circuladas. Com este aspecto pressupõe- se que haja factores externos à própria condução dos veículos automóveis para a sua ocorrência. Os concelhos de Bragança, Mirandela e Macedo de Cavaleiros são atravessados por uma das estradas mais conhecidas pela sua elevada incidência de acidentes rodoviários, o IP4, sobretudo pelo elevado número de vítimas mortais aí verificados. Ainda que nos últimos anos esta sinistralidade tenha diminuído, em praticamente todos os sectores do IP4 se verificaram acidentes graves.
Contudo, acidentes rodoviários ocorrem desde que existem veículos automóveis, Mesmo quando esses automóveis eram em menor número na região, ocorria um número considerável de acidentes, como o atestam, por exemplo, as muitas notícias sobre o assunto publicadas no jornais locais e regionais, havendo mesmo referências a acidentes graves, alguns com várias vítimas mortais.
Exemplificando, citam-se alguns desses relatos, ocorridos na década de 1950:
no dia 22 de Agosto de 1950 registaram-se quarto feridos num acidente de viação na Estrada de Guadramil para Bragança, “porque se desatrelou um reboque” de um carro todo-o-terreno que vinha das minas de Guadramil (Mensageiro de Bragança nº 318, de 25 de Agosto de 1950);
em Vale da Porca (Macedo de Cavaleiros), uma pessoa morreu num acidente de viação envolvendo um automóvel e um motociclo (Mensageiro de Bragança nº 478, de 2 de Outubro de 1953);
no dia 5 de Maio de 1954, na Estrada Nacional nº 15, próximo do tanque do Ramisquedo, a 11 quilómetros de Bragança, ocorreu um “violento desastre” rodoviário, quando uma “furgoneta se despenhou por uma ribanceira de 20 metros”, causando um morto e dois feridos (Mensageiro de Bragança nº 509, de 7 de Maio de 1954);
num acidente de viação, em Setembro de 1959, na ponte do Ribeiro Frio (Bornes, Macedo de Cavaleiros), um carro caiu num ribeiro, numa altura de cerca de 10 metros, causando três mortos e dois feridos (Notícias de Mirandela nº 135, de 13 de Setembro de 1959).
Como se referiu, os acidentes rodoviários, apesar de poderem ocorrer onde haja circulação automóvel, actualmente têm particular incidência no IP4, devido às características da via e à elevada intensidade do tráfego. Nesta estrada, os acidentes têm ocorrido em muitos pontos, não havendo propriamente locais onde haja claramente mais acidentes rodoviários.
Contudo, de acordo com informações obtidas junto dos agentes locais de Protecção Civil (principalmente os Bombeiros e a Guarda Nacional Republicana), existem, ainda assim, alguns sectores mais críticos no IP4, nomeadamente no alto de Rossas, nas proximidades de Romeu e no cruzamento do Azibo, sendo igualmente claro que as áreas onde há cruzamentos importantes são normalmente mais perigosas. Da mesma forma, é realçado o facto de, nos últimos anos, essa sinistralidade ter vindo a diminuir, o que se atribui à melhoria generalizada do piso da via, à colocação de separadores centrais e ao maior número de acções de sensibilização e operações de policiamento na estrada.
No que diz respeito a acidentes ferroviários, refira-se que, actualmente, apenas na parte sul do concelho de Mirandela existe linha férrea a funcionar (linha do Tua), entre Carvalhais, quatro quilómetros a nordeste da cidade de Mirandela, e a povoação de Cachão, no limite sul do concelho.
Contudo, existem referências a acidentes no passado, não apenas no concelho de Mirandela, mas também nos concelhos de Macedo de Cavaleiros e de Bragança, quando a linha funcionava na sua plenitude, entre o Pocinho e Duas Igrejas, passando pela cidade de Bragança. Durante a maior parte do século XX, a importância do transporte ferroviário foi determinante não só para a mobilidade regional mas também para algumas povoações, que se foram desenvolvendo junto a esta importante via de comunicação regional.
Nalgumas fases do século XX, principalmente a partir da década de 1940, a intensidade do tráfego ferroviário e o número de passageiros foi-se tornando bastante relevante, de tal forma que houve períodos em que ocorreram bastantes acidentes ferroviários. O acidente de 14 de Abril de 1943 no sítio da Madorra, em Mirandela, é considerado como o mais grave acidente ocorrido num comboio, na linha do Tua. Uma carruagem explodiu, provocando pelo menos nove mortos. Não se tratou propriamente de um descarrilamento ou embate, tendo sido atribuída a causa da explosão à pólvora que um fogueteiro de Macedo de Cavaleiros levava consigo.
No entanto, parece ser a década de 1950 aquela em que mais ocorrências deste tipo (e com maior gravidade) se fizeram sentir. No dia 12 de Janeiro de 1952 ocorreu um descarrilamento de comboio entre a estação de Tralhariz e o apeadeiro de Castalheiro (ponte das Fráguas Más), devido “à má conservação da linha-férrea, principalmente das travessas que se estragam com a chuva” (Mensageiro de Bragança nº 391, de 18 de Janeiro de 1952). Uns meses mais tarde, noticia-se que no mesmo local ocorreram quedas de blocos sobre a linha-férrea tendo “um pedregulho com mais de 15 toneladas caído de 20 metros de altura”, sobre o viaduto metálico, danificando-o.
No dia 24 de Novembro do mesmo ano ocorreu um descarrilamento a dois quilómetros de Bragança, junto à ponte das Cochas, por “motivo de desabamento das trincheiras”, embora sem danos pessoais (Mensageiro de Bragança nº 436, de 28 de Novembro de 1952). Um novo descarrilamento de comboio ocorreu no dia 13 de Outubro de 1953, entre Abreiro e Codeçais, descarrilando a máquina e dois vagões “por se encontrar a linha obstruída com pedras e terras, devido às grandes enxurradas provocadas pelo temporal que ontem se fez sentir” (Mensageiro de Bragança nº 481, de 30 de Outubro de 1953).
Ainda assim, o ano de 1954 parece ter sido o mais trágico e aquele com maior número de acidentes ferroviários na linha do Tua. A 21 de Janeiro, um homem foi colhido no sítio de S. Lourenço, em Bragança (Mensageiro de Bragança nº 495, de 30 de Outubro de 1954). A 3 de Junho ocorreu um “descarrilamento do vagão da cauda do comboio”, entre Castelãos e Azibo (Macedo de Cavaleiros), provocando um ferido (Mensageiro de Bragança nº 515, de 18 de Junho de 1954). O mais grave acidente ferroviário em Mirandela ocorreu às 8.30 horas do dia 20 de Junho, na passagem de nível de Cedães, tendo uma automotora atingido uma “camioneta de carga” pertencente a Gabriel Coelhoso, provocando quatro mortos (Mensageiro de Bragança nº 516, de 25 de Junho e nº 518, de 9 de Julho de 1954).
A este propósito, cite-se um artigo publicado no Mensageiro de Bragança nº 555, de 25 de Março de 1955, caracterizando a linha férrea do vale do Sabor como “a mais mal servida do país, com material velho e dando sinais de morte”, referindo-se aos frequentes descarrilamentos que aí ocorrem. Na mesma passagem de nível, no lugar de Cerdeiros, à saída de Mirandela, no cruzamento das estradas nacionais de Bragança e Cedães (conhecida pelo nome de Cedães, por dar acesso à aldeia com esse nome), ocorreu novamente um acidente grave, a 30 de Agosto de 1961. Causou um morto e dois feridos, pelo embate do comboio numa camioneta (Notícias de Mirandela nº 234, de 3 de Setembro de 1961). No artigo do jornal chama-se a atenção para a necessidade de guarda para esta passagem de nível, referindo que aí ocorreram três acidentes graves nos sete anos anteriores.
Muito recentemente, nos anos de 2007 e de 2008, ocorreram acidentes ferroviários de realce na linha do Tua (um deles bastante grave, causando a morte a três pessoas, em Fevereiro de 2007). Todavia, ocorreram a sul do limite do concelho de Mirandela, onde o rio Tua está mais encaixado, com as vertentes mais instáveis.
No que diz respeito a acidentes aéreos, há a registar uma única ocorrência. Tratou-se de uma aterragem forçada, ocorrida às 19.45 horas do dia 8 de Maio de 1994, nas proximidades de Bragada, freguesia de Rossas, num campo lavrado situado numa encosta. Tratava-se de um avião bimotor Islander BN 2A8 da carreira Lisboa-Porto-Bragança, que efectuava o voo ARD 554 de Tires para Bragança. Não houve feridos, mas o avião ficou danificado (Mensageiro de Bragança nº 2483, de 13 de Maio de 1994).
Os incêndios urbanos têm ocorrido ao longo dos anos com maiores ou menores danos materiais e humanos. Contudo, nas últimas décadas, sobretudo fruto de materiais de construção menos susceptíveis a incêndios e dos melhores meios de combate, os danos derivados deste tipo de incêndios tem vindo a decair. Não é, portanto, de estranhar, que existam bastantes referências a incêndios ocorridos em edifícios, desde a década de 1940. É o caso do violento incêndio ocorrido no dia 16 de Março de 1943 no edifício dos paços do concelho de Bragança, que “reduziu a escombros todo o edifício e tudo o que lá estava” (Mensageiro de Bragança nº 79, de 1 de Abril de 1943), havendo referência a indícios de crime, pois dias antes havia indícios de fogo posto na secretaria da câmara. Curiosamente, os paços do concelho de Macedo de Cavaleiros tinham sido igualmente atingidos por um incêndio no ano anterior, em Março de 1942, segundo refere o jornal O Cardo nº 34, de 18 de Junho de 1984.
Em Setembro de 1950, houve igualmente um importante incêndio na casa de trabalho Dr. Oliveira Salazar, na cidade de Bragança, originando “mais de 1000 contos de prejuízo” (Mensageiro de Bragança nº 321, de 15 de Setembro de 1950). Nota para a referência a um incêndio ocorrido a 6 de Julho de 1956 numa casa particular (de Daniel Tobias Gonçalves) em Torre Dona Chama (Mirandela) causando prejuízos totais (Mensageiro de Bragança nº 623, de 21 de Julho de 1956). Na cidade de Mirandela, ocorreu um incêndio a 13 de Fevereiro de 1976, destruindo o Edifício Além-Douro, pertencente a José Carvalho, na Rua da República. De acordo com o jornal Notícias de Mirandela, de 10 de Maio de 1978, este incêndio terá causado a morte a duas pessoas e causou vários feridos e desalojados.
Quanto a riscos tecnológicos do tipo industrial, os registos de ocorrências anteriores são muito escassos, limitando-se a acidentes relacionados com materiais explosivos ou a situações de águas conrências.